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Abstenção não é a melhor escolha, diz CNBB em defesa do ‘voto responsável’

“Convidamos cada eleitor e eleitora a assumir sua responsabilidade. A abstenção não é a melhor escolha. O discernimento cristão exige olhar não apenas para promessas de campanha, mas, principalmente, para a história de vida dos candidatos e as consequências dos compromissos assumidos”, disse a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em mensagem “ao povo brasileiro por ocasião das eleições de 2026”, divulgada ontem (18).

Neste ano, os eleitores vão às urnas para escolher o presidente da república, governadores de Estado, senadores, deputados federais, estaduais e distritais. O primeiro turno das eleições será em 4 de outubro. Se necessário, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.

A nota, assinada pelos membros do Conselho Permanente da CNBB, diz que “mais do que escolher governantes e representantes”, os brasileiros são “chamados a renovar” seu “compromisso com os valores que sustentam a convivência democrática, a justiça social e a fraternidade”.

Além disso, a CNBB ressaltou que “a Igreja Católica não indica candidatos nem partidos”, mas “movida pelo Evangelho e pela missão de anunciá-lo, promove a vida, a dignidade humana e serve à construção do bem comum”, porque a Igreja “parte da fé em Jesus Cristo e da convicção, reafirmada pela Doutrina Social da Igreja, de que a política, quando orientada pela ética, constitui uma das mais elevadas formas de caridade”.

“À luz do Evangelho, não podemos silenciar diante da escandalosa desigualdade social, da corrupção, da compra de votos, da utilização indevida dos recursos públicos e da disseminação deliberada de mentiras (fake news). Não é possível aceitar o abuso do poder econômico e político e as formas de violência que ameaçam a convivência social, enfraquecendo a confiança nas instituições democráticas”, diz o documento. “Não existe democracia sólida quando a divergência legítima é transformada em hostilidade permanente, pois o adversário político não pode ser tratado como inimigo”.

Para a CNBB, “a democracia, além de eleições periódicas, requer respeito às instituições da República, especialmente à Constituição Federal, ao Estado Democrático de Direito, à interdependência dos Poderes, à liberdade de expressão responsável e à participação cidadã” e “exige também confiança nos mecanismos legítimos de apuração da vontade popular, respeito aos resultados das urnas e à Lei da Ficha Limpa”.

“Confiamos nosso país à proteção de Nossa Senhora Aparecida, Mãe e Padroeira do povo brasileiro. Que Ela nos ajude a percorrer caminhos de justiça, verdade e paz. Que Deus abençoe o Brasil e ilumine cada eleitor e eleitora”, finalizou a Conferência.

Para embasar sua nota e suas declarações sobre política, a CNBB faz periodicamente uma análise da conjuntura social do Brasil. A de 2026, diz que a conjuntura atual “deve ser compreendida como um período de reorganização simultânea de centros de poder, identidades políticas e disputas sobre a capacidade do Estado brasileiro de coordenar o território, a economia e a vida social”.

Com 136 páginas, o documento apresenta o calendário eleitoral, análises de contexto, cenários políticos e as principais disputas nacionais e regionais relacionadas às eleições de 2026 no Brasil. O estudo foi apresentado na terça-feira (16), durante a reunião do Conselho Permanente da CNBB, pelo bispo de Carolina (MA), dom Francisco Lima, coordenador do Grupo de Análise de Conjuntura “Padre Tierry Linardi”.

Segundo a análise, “o país atravessa uma fase em que crises fiscal, federativa, institucional, ambiental, securitária e representativa deixaram de operar separadamente e passaram a se retroalimentar”.

“Tal cenário é, ao fim e ao cabo, uma crise da representação política e fragmentação institucional no Brasil contemporâneo” e, nesse contexto, “o presidencialismo brasileiro sofreu alterações profundas”.

“O avanço das emendas parlamentares impositivas fortaleceu significativamente o poder distributivo do Legislativo sobre o orçamento público” e “ampliou a autonomia política do Congresso Nacional e fortaleceu lideranças partidárias e regionais”.

“Nesse cenário, o fortalecimento do Centrão não decorre apenas de pragmatismo partidário, mas de uma mudança estrutural do sistema político”, pontuou a avaliação. “A fragmentação partidária, combinada com regras eleitorais altamente competitivas, produziu um Congresso mais autônomo em relação ao Executivo e simultaneamente mais dependente de redes locais de poder econômico, religioso e regional. Presidentes da Câmara e do Senado passaram a exercer funções que extrapolam largamente a condução legislativa tradicional, assumindo papel decisivo na definição do orçamento e da estabilidade política”.

‘Eleição presidencial deixou de ser exclusivamente presidencial’

A atual disputa eleitoral “não ocorre apenas em torno de nomes, pesquisas ou candidaturas individuais, mas sobretudo em torno da capacidade de construção de alianças nacionais e regionais capazes de sustentar governabilidade num país marcado pela fragmentação partidária, pela força crescente dos governadores, pela centralidade do Congresso Nacional e pela Reorganização simultânea das direitas e das esquerdas brasileiras”, diz o documento da CNBB.

“A disputa de 2026 tende a funcionar como grande reorganização nacional das forças políticas regionais”, e os “governadores, bancadas parlamentares, frentes econômicas, igrejas, máquinas estaduais e alianças territoriais”.

Segundo a análise, “em certo sentido, o Brasil aproxima-se de uma lógica semiparlamentar informal, na qual a viabilidade presidencial depende crescentemente da capacidade de articulação federativa e congressual”.

O documento aponta que o atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), permanece como “principal referência do campo governista e da centro-esquerda”, mantendo “forte densidade eleitoral no Nordeste, entre setores populares, movimentos sociais e parte significativa do eleitorado historicamente vinculado ao lulismo”. Entretanto, caso haja uma eventual candidatura à reeleição, ela ocorrerá em “um ambiente mais difícil do que em 2022”, visto que o atual “governo enfrenta sinais de fadiga política, limitações fiscais, dificuldades de comunicação e crescente pressão do Congresso Nacional”.

No campo da direita, o estudo diz que “o cenário permanece marcado pela reorganização do bolsonarismo pós-Bolsonaro”. O documento destaca que “a inelegibilidade e os problemas judiciais do ex-presidente produziram uma disputa interna pela liderança do campo da direita nacional”.

“O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece como principal herdeiro político do núcleo bolsonarista mais ideológico”, relata o estudo. “Entretanto, o bolsonarismo enfrenta um desafio estrutural importante”, visto que Flávio que precisa “superar as disputas internas e sobreviver aos escândalos, especialmente do caso Master, que está corroendo” sua candidatura, segundo as “atuais pesquisas de intenção de votos”. 

O estudo também cita o crescimento de lideranças da direita e da centro-direita nos Estados. Como o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo-MG), que “busca apresentar-se como representante de uma direita liberal, gerencial e econômica, apoiada no discurso de eficiência administrativa e redução do Estado”, e o ex-governador do Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), que “tenta ocupar o espaço de uma direita conservadora mais institucional, fortemente vinculada ao agronegócio, à segurança pública e ao discurso de autoridade”.

Ainda segundo a análise de conjuntura, “o Senado também ocupa posição central nessa conjuntura”, dado que “a renovação de dois terços das cadeiras transforma as alianças estaduais em elemento decisivo da disputa nacional”, e “as composições presidenciais precisarão equilibrar viabilidade nacional; apoio congressual; e competitividade regional”.

Para a CNBB, “o país encontra-se dividido em múltiplos espaços políticos: Nordeste lulista; Centro-Oeste agroconservador; Sul liberal-conservador; Sudeste fragmentado; Amazônia em disputa; e periferias urbanas altamente voláteis”.

Fonte: ACI Digital

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